Cristo no deserto

Desde as cavernas pintadas com tintas primitivas, penso que a pedra tenha sido o primeiro local de breve descanso da humanidade. Posso estar enganado, mas creio que o ser humano utilize esse objeto, desde então, como forma de aliviar o peso de uma longa caminhada ou mesmo de uma tarefa árdua.

Penso que existam três lugares essencialmente propícios à reflexão: o mar, com toda a sua imensidão; o espaço, com seu vazio congelante; e o deserto, feito de pedra moída ao longo de milênios. Todos têm em comum a falta de algo no horizonte. Às vezes, veem-se pequenos objetos, mas tão distantes que não conseguem nos distrair de um pensamento.

Lugares estes que nos fazem abstrair de tudo e focar unicamente em um ponto. E esse ponto é o pensamento. Então, não há mais espaço para nada além da profunda e irresistível abertura que se faz no peito.

No mar não consigo caminhar. No espaço, muito menos. Já no deserto, esse é plausível, factível; mas também é dolorido, escaldante e congelante.

Lá estava. Várias pedras. Um deserto. Vários vales. Um perder de vista.

Também um homem. Desses que aparentam o comum. Nada de destaque. Nenhum brilho natural.

Rosto suado, roupa desgastada, olhar faminto, ossos aparentes, veias estufadas, um semblante de dor. Nesse mesmo corpo sofrido, uma mente forte, sólida, feita da pedra sobre a qual se sentara.

A maior das contradições: um corpo consumido, mas uma mente que emitia cura.

Um deserto. Uma pedra. Um homem.

Milhões de pensamentos. Bilhões de sinapses. A reserva de gordura consumida em quarenta dias.

Pele e osso.

Mente e vigor.

Obrigado, Jesus Cristo, por isso. 

processo

um caminho longo à frente,
desses que parece não ter fim,
embora já se desenhe um horizonte.
então me recordo dos conselhos:

confie no caminho,
nada de atalhar.
se acelerar,
que o próximo passo seja firme.

confie no mapa,
nas letras miúdas,
no relato de quem
já caminhou até lá.

se, e somente se,
não houver saída,
confie no seu instinto.

vá refletindo,
quando possível.
chorando,
se não houver outro modo.
mas siga.

logo o que almejava
será o agora.
a dor se tornará passado.

algumas cenas serão esquecidas,
outras valorizadas,
outras diminuídas.
mas em todas
você esteve lá.

no caminho, no processo,
no trajeto, na estrada.


28.6.26

apresentada

apresentada foi a semente,
mas ali eu já via a flor.
não via tão longe,
mas já sentia o futuro
tomando forma ali.

sua doçura e atenção
contrastam com dias
tão amargos e dispersos.

que encontre em nós e em outros
terra fértil
para cumprir sua sina:
ser o que deseja ser. 


31.5.26

amor

Sublinhei tudo o que é bom
e, mesmo assim, não
cheguei ao seu ápice.
O cume de todo o bem
é baixo frente ao amor.

Mesmo em meio ao ardor
e na profundidade da tristeza,
ele brilha como um farol
em um mar revolto, turvo
e amedrontador.

O amor é como olhar
o universo ou
o horizonte do mar.
Consigo ver em parte,
mas nunca o todo.

O coração se aprofunda
em singularidade,
e tudo é sugado a ele,
como um grande vórtice.
A diferença é que
o amor exala tudo.

E isso transforma tudo.



 17.5.26

maria

Mesmo sendo mãe,
aprendeu o tempo todo.

Seu Filho
é o Pai da fé.

Foi sendo filho,
ao mesmo tempo em que Pai,
amando fraternalmente.


10.5.26

nau

diante do azul chumbo do mar revolto,

vejo a luz oscilar em algum farol à leste.

sigo trocando os pés, não pelas mãos,

pela mente, pelo coração.


sinto muito em não sentir nada.

às vezes, minha fé é como areia nas mãos.


escorre, some.


sinto como aquela antiga sensação de um membro fantasma.

sinto-o, mesmo que nunca mais o tenha.


é pesada, a dor de querer crer e não conseguir.

parece que tudo é um vazio sem fundo,

é um correr atrás do vento.


parcos momentos onde estou por inteiro.


quase sempre me sinto como um membro ausente,

há tempos escorrendo, sumindo,

mas espero que deixe saudade. 

processo

naquele dia
nasceu nas minhas costas
um galho retorcido.

discreto,
foi crescendo
até se exibir.

vozes de todos os lados
me aconselhavam,
especialistas em quase tudo.

ouvi também quem entendia:
dê de ombros,
vai diminuir
e cair sem sequelas.

ouvi com alívio.

mas logo outras vozes
me cegaram.

tentei serrote,
me cortei.
tentei lixa grossa,
me arranhei.

fiquei marcado
e com o galho,
agora vistoso,
florido.

tentei removê-lo,
mas só me feria.

até que um dia,
cansado e entregue,
senti a cabeça leve.

olhei ao lado:
lá estava ele,
caído.

o peito aliviado,
a cabeça latejando,
marcado por tentar
apressar a queda.



estafa

estava a dois passos de chegar
via o que me movia até ali,
ouvia sua presença iminente,
mas não queria mais caminhar.

todos os passos até ali
pesavam como chumbo.
o que restava à frente
era opaco.

mesmo tendo fôlego,
faltava-me o querer.

sem ele,
não há chegada.

singular cotidiano

certa vez um mestre me disse:
tudo, incluindo o nada,
cabe numa tampa de caneta.

desde então
carrego um buraco negro no peito
que me puxa para o centro de mim mesmo.

ao contemplá-lo, fico lento, quase estático,
mas logo expele de mim
a mesma força que me arrasta
ao cotidiano.

e amanhã, tudo de novo.

insignificância

a que pese
minha significância
tende a zero,

na maioria dos casos.

no absoluto,
tende ao nulo.

porém,
em noites estreladas,
ouso.

ergo minhas íris
ao horizonte de onde
tudo veio,

teço e conjecturo
o que provável
e, possivelmente,
o que nunca saberei.

constelações

astros de tempos diferentes
com brilhos diversos,
espectros amplos de luz,
massas incontáveis

da imensidão luminosa
a cada retina receptora
todos chegam ao tempo presente
desenhando constelações

no oriente, Shen Xiu
no ocidente, Orion

olhar

quanto mais olho
para o nada em expansão,
mais se deposita
nas minhas íris gastas
um pó de luz
de que tudo é feito.

enfado

a fadiga do pensar
me impede de agir

como se uma pedra
imensa
estivesse
a me prender

tenho uma talhadeira
mínima
e tenho o tempo
a favor

demorará
eu sei que irá

mas vou romper
esse sólido geolítico
ancestral

eu

minha humildade exala minha sobriedade se revela minha naturalidade sustenta

minha acidez corrói minha apatia permanece minha audácia me cega minha soberba me impede minha arrogância me prende

entre picos e vales entre crer e duvidar entre inspirar e expirar

esse sou eu um teólogo herege

paternidade

entendo que a melhor analogia de ser pai
é a dualidade: angústia e veneração.
semelhante ao contemplar o infindável e amável mar
ou o imenso e convidativo espaço.

é um buraco no peito.
é o peito cheio de
contentamento.

é maravilhoso e,
ao mesmo tempo,
tenebroso.

é o mais alto nível de fé,
e a maior e mais profunda dúvida.

mas o tempo, ele mesmo,
se encarrega de resolver
tudo isso.

sobre a poesia

a poesia é a mecânica quântica das letras.

Deus é verbo e se exibe mais claramente com a poesia.
o inexplicável é de fato o que é.

porém a chave da poesia abre mais portas.
salas e quartos no oculto são iluminados,
mas ainda há muito pra adentrar.

a ciência evolui e a poesia e os poetas dão novos passos.
a ciência abre portas laterais.

a poesia acessas esses novos lugares
e descobre antessalas secretas. 

multiformas

nesse dia a mensagem
veio quadrada,
perfeita, precisa,
porém não se encaixou em mim.

outro dia,
já veio em espiral,
rápida, fluída,
porém não se encaixou em mim.

meses após,
veio triangular,
base forte, fundamental

nesse momento
ouvi, entendi,
e fez parte de mim.

o quadrado, a espiral,
todos acharam lugar.


18.1.26

nova mente

pouco a pouco
fui desaparecendo
pulverizando lembranças antigas.
como se algo dentro de mim
estivesse me refazendo,
me renovando,
me recriando.

e nada era mais como dantes,
porém sinceramente não sei 
como era antes.

então será que sempre fui assim?
ou há uma nova mente
dentro de mim 


8.1.26

acepipes

sonhos em conserva.

esperando a realidade ácida

a consumir, pouco a pouco.


minha casca dura

mantinha todos os desejos seguros:

intactos, imutáveis.


pensei que duraria para sempre.


mas a salga começou.

senti de todos os lados.

como uma maresia interna,

os desejos foram sendo corroídos.


já estava vulnerável.


todas as agruras e amarguras

foram decantando.

minha textura mudou,

minha cor,

e mais ainda o meu sabor.


hoje sou eu, não o mesmo.

mas os sonhos não morreram

só mudaram de gosto.


ainda os conservo,

com uma intensidade diferente. 

poslúdio da morte

a dor ainda está latente,
pulsando feito o peito.

ora atinge como flecha:
corta, dói, machuca.

ora vem como um raio,
inesperado, rápido, voraz.

a dor da morte é
a dor de continuar a vida.

seguir com a ausência,
com as lembranças,
sempre quentes, nunca frias.

não era para lágrimas

mas quando ela rola,
o rosto cede caminho,
e o coração acompanha
o trajeto.

uma maneira de dizer
tudo sem falar nada.
sinceridade em um
gesto.

escuridão

quando estiveres na escuridão,
não titubeies, fantasiando coisas.
foca pensamentos no nada,
sem deixar brechas para miragens.

com o tempo, as cores revividas serão,
vagarosamente...

os medos que te impactam,
sem nem mesmo existirem,
serão clareados lentamente.

logo concluirás
que o escuro é semiótica
e que tudo não passa de dogmas.

cicatriz

eu vi em seus olhos:
inocência e medos,
como se o mundo não lhe registrasse.

não lhe desejo mal,
apenas o melhor que tenho.

sinto seu sofrimento como se fosse meu.
sinto sua retina tocar a minha,
sinto seu corte no meu rosto.

contemplação

olhei o céu.
observei ao redor.
vi o povo humilde,
mãos calejadas,
rostos cansados.

então disse a todos:
aos que creem, glória a Deus.
aos que não creem,
apenas glória.

meu irmão

o temor virou lágrimas.
um amor sem mancha,
puro como poucos.

seu sorriso ainda vejo:
aquele jeito de amigo
que carrego comigo.

enquanto dure

nada passa, nada expira.
o passado é um rio que dorme,
e a memória, uma mentira multiforme.

dualidade

gritou-me, pelas avenidas da cidade,
em alto e bom som:
ladrão!

sussurrou-me,
numa viela escura qualquer:
desculpa!

cão

vejo tudo por baixo,
mas sorrio, todavia.
levando a face,
espero por um afago,
e nem sempre ele vem.

igual a ele

ouça-me,
sem reservas, sem preceitos.
apenas me olhe,
tenha atenção em mim,
como se eu fosse interessante.

diga-me,
sem reservas, com seus preceitos.
eu te olharei,
terei atenção em ti,
como se fosse a melhor coisa do mundo.

e dirão: busque a Deus.

mas não quero buscar.
quero que me busque,
como se eu fosse alguém especial,
mesmo que por alguns instantes.

ele fazia assim.

antes de partir,
ele me amou do seu jeito,
o melhor dos jeitos.

muito além de irmão,
um sábio.
eu, aprendiz que não fazia lições.

mesmo assim,
tinha um olhar receptivo.

aprendia ao deitar ao seu lado.

o brilho dos seus olhos
focava nas minhas sombrias pupilas.
minha mente regozijava.

quando a luz é verdadeira,
clareia incondicionalmente.

seu brilho era puro.

quando a luz é sincera,
marca o olhar alheio.

meu olhar está marcado.
para sempre.

eram olhos de Deus materializados.

não é blasfêmia:
blasfêmia era não dar atenção
para aquelas portas de bondade.

Deus estava nele.
e isso é tudo.

contraste

o som da chuva,
o cheiro da chuva,
e a chuva em si.

a terra seca,
a folha seca,
e a seca em ti.

o verde que nasce,
o brilho do verde,
e o verde em mim.

sou

embora o que penso seja tão meu,
o que vivo é alheio.

sou meu pai, sou minha mãe,
sou meu amigo, sou o porteiro,
sou a professora, sou minha esposa,
sou meu filho, que ainda nem tenho.

sou a tv.

e quando quero me opor,
sou a oposição.
quando quero não ser,
sou ainda mais.

rindo o pranto

se meu riso
é a dor do outro,
prefiro o pranto.

se meu pranto
é o riso do outro,
não reluto.

se meu riso
se estende no outro,
continuo.

se meu pranto
é o pranto do outro,
Deus nos ajude.

Raskólnikov

estava em Petersburgo,
investigava algumas vidas e uma mente.

foram quatro tentativas,
dois inquéritos completos.

a sentença foi compreendida
logo nas primeiras linhas.
não havia dúvida; estava claro.

arte tão pura que me senti
ínfimo, ordinário.

réu estranho, solitário, extraordinário.
vida essenciada no pensar,
a tarefa humana mais sublime.

todavia, sofria sem se entender.

mas que há de bom em ser perfeito
se sua alma se corrói lentamente?

retorno

de verdade, nunca fui,
mas voltei.

do mesmo modo
a tempos passados,
escrevo meu regresso.

arrependido de ter ido.
contente de ter voltado.

reflexo

feito pedra,
tudo que vem até mim
reverbera.

é olho por dente.
raiva na boca.
soco no estômago.

é ele morto, eu vivo.
eu certo, ele errado.
puro, ele maculado.

claro que posso.
eu decido.

sou o primeiro
a pegar a pedra
e a jogo.

mas lá atrás,
bem lá atrás,
era um espelho.

por isso a dor que sentia
era eu mesmo
a me atacar.

só me fiz mal.
até agora.

greve

meus neurônios pararam.
entraram em greve.

agora tomo café com sal,
digo bom dia à meia-noite,
confundo chegadas com despedidas.

dizem que enlouqueci.
mas é apenas uma manifestação.

eles não querem mais
buscar memórias perfeitas
para comparar com meus dias cinzas.

não querem mais acreditar
que a grama de lá é mais verde.

pois concluíram, são só tons.
e cansaram de julgar.

os neurônios não recuam.
exigem silêncio.
exigem pausa.

do resto,
ainda negociam.

goteiras

três goteiras em casa:
cozinha, chuveiro, pia.
deixei dois anos pingando
pra provar que eu decido quando.
arrumei duas.
na terceira, quebrei o que funcionava.
mas eu é que mando. 

10 palavras

dez palavras
pairavam em minha mente.
uma delas, pela minha boca,
passou.

duas delas de uma música vieram,
outras duas do nada surgiram,
quatro outras um amigo disse,
uma, acho, eu mesmo pensei.

mas esta que saiu,
não sei como,
nem mesmo quando,
surgiu meio que do nada,
mas, ao mesmo tempo,
me parecia familiar.

nesse mar de palavras,
essa pesquei, embalei,
de improviso,

e saiu,
e nunca mais vai voltar.

vai fazer estrago, talvez,
vai fazer afago, quem sabe,

mas já foi,
e nunca mais vai voltar.

cambaleante, trêmula, indigesta,
mas, acho, honesta.

a palavra, então,
era um simples,
por vezes incompreendido:

não.

Semente Ferida (revisado)

Ouve-se um grito do fundo de um fruto:
nasce sozinho, como a noite.
Adormecido pelo veneno do destino,
agora só, ele clama por socorro.

Esse grito sussurra as dores do tempo.
Mórbido, mas grato, ele aplaude
seu próprio surgimento —
reconhece que cada um tem sua sina.

Vive almejando saber, conhecimento,
para preencher as lacunas do destino.
Mas seu instinto apaga o dia aprendido
e, com o tempo, monotonia vira contentamento.

A solidão ainda corrói sua alma.
Tenta escapar da lembrança,
mas seu brilho aumenta de expectativas —
irradia forte, como a esperança.

Seus sonhos começam a solidificar.
Um dia, uma brisa o carrega para o céu
e ele voa, como folha no outono.
A brisa cessa. Ele despenca.

Gritos de esperança tornam-se angústia.
Cai sobre a terra molhada
pelas lágrimas do céu, que se emociona.
Cobre-se rápido, espantando o frio.

Então, coberto pela terra úmida, ele cresce.
Suas cóleras ficam com a casca extraída.
Ele se abre: de seu interior sai a esperança acumulada.
O grito agora é mais alto, mais agudo, feliz.

Não grita mais em busca de ajuda —
grita jubilando, louvando
pela doce brisa que o trouxe até aqui.

manifesto

isto é um utópico manifesto
proposto internamente dentro de mim
em um mundo onde o lucro
vale mais que pão.
pão vale mais que sangue.

cortaram a artéria liberdade
e injetaram torrentes, frequentes
de ficção comercial.
cultura de proles, de massas,
enjaulado pelo desejo.
a concupiscência do lucro,
luxúria com capital.

trabalho migalhado em doze.
obrigação oculta de quadruplicar,
enchendo as taças de cristal.
vós, proletariados, descartem
copos de plásticos, finos
como folha seca de roseira,
para saciar a sede,
entre processos de exaustão.

desgraça, cegueira imbecil.
decadentes comunidades.

missão

foi caminhando, 

com os pés calçados. 

por pouco tempo. 

a sola logo desfaleceria. 

 

ouviu bilhões de vozes. 

entre atender a cada um 

escolheu atender a todos. 

 

sentiam o calor da areia 

em seus pés descalços, 

em seus joelhos no chão. 

 

dia, tarde, noite. 

oração e tentação. 

 

o frio acompanhava-o. 

maltrapilho, malvestido. 

bilhões de pedras 

prontas para lhe apedrejar. 

 

ele foi a meu encontro, 

e estendeu os braços 

em forma de uma cruz. 

 

pediu perdão por nós. 

virou sua face e morreu. 

 

eu o matei. 

morreu por mim. 

cappuccino

o calor chegou
espalhou-se.
gradativamente foi
colorindo cenários tão belos.
como se fosse uma cortina a se abrir,
ou melhor, a se desfazer e,
subitamente, sumir.

ficou, rodeado, como
um painel cinematográfico
com frases absolutas.
aos poucos o calor cessava
e o marrom-saudade
voltava se mantendo.

trouxe lembranças agradáveis.
memórias tão gostosas.
o peito sentiu uma vontade.
os olhos sentiram também.
as mãos logo esfriaram,
queriam ser aquecidas
pelo calor de querer bem.

ironicamente irmãos

Jovens dançavam no ônibus em movimento.
Logo a frente via-se uma ponte.
Ponte sobre trilhos do trem.
De onde vinha aquela máquina?
E para onde iria o veículo
cheio de sonhos e sonos?
O ônibus seguia o planejamento,
soltava uma linha invisível
de combustão finada.
Dentro dele vários pensamentos sem vínculo.
Juventude transviada e viciada.
Na margem daquela ponte
de concreto forte, como o orgulho,
um jovem admirava o brilho
metálico dos trilhos. Em sua mente
uma antiga convicção de morte.
Queria terminar com seus sonhos
e não tinha esperança pós morte.
Queria ser análogo aos cães.
Sofreu e deu amor,
mas não quiseram o amar,
preferiram o ver se entregar
a miséria sentimental.
Onde estão os valores? Pensava.
E de tanto pensar chegou
convicto à idéia de finados.
Estava lá imóvel a espera da hora certa.
Seu coração não queria mais sentir,
apenas pulsar em seu ritmo acelerado.
Olhou em volta sentiu na pele
o vento veloz trazido pelo ônibus
cortando-o como uma navalha de gelo,
mas, sem o coração pra sentir
não sofria o impacto, apenas imaginava.
Os risos escandalosos dos jovens
dentro do ônibus, o impulsionaram ao precipício.
Restou frases na cabeça partida sobre os trilhos,
palavras escorriam como sangue.
Dizia assim a desgraça expostas:
Como não se compadeceram de mim?
Eu aqui sofrendo, posto ao fim
Já eles apenas preocupados com o tempo,
a velocidade e a quantidade de álcool
que ainda dispunham.
Mesmo assim pai, eu os considero irmãos.

raros encontros de sol e ar

Quando sua face esquerda
deitou no meu ombro direito,
meu coração, de ambos os lados, lhe dei.

Quando sua mão esquerda
entrelaçou com minha mão direita,
minha paixão, em ebulição, lhe mostrei.

Seu toque meigo
encontra a metade do meu eu,
fundo, dentro de mim.

já não precisamos de muitas palavras,
apenas olhares sinceros e ocasionais
para viajarmos para nosso mundo.

opróbrio do passado fresco - parte 1

Pra mim foi complicado ‘tentar’ me criticar - no sentido mais penoso da palavra - e concluir que tudo que fiz foi não ter força ou coragem pra agir. Não uma ação utópica, radical, mas apenas uma ação coerente com aquilo o que disse, ou no caso do texto, com o que escrevi. Desde já lhe peço desculpas pelo que venho escrevendo, não pelos poemas – poemas são pessoais e, pra mim não tem peso político ou revolucionário, unicamente são coisas que desejo escrever, algo visceral -, e sim por todos os textos com peso esperançoso em mudanças pessoais ou universais. Fui covarde, em todos os sentidos, comigo mesmo e conseqüentemente com quem leu. E quero agora tentar reaver o tempo perdido ou talvez acrescentar alguns minutos nesse tempo.
As palavras aceitam tudo. De vômitos verbais a ignomínias literais. Não que haja problema em escrever ou expor algo. A meu ver, constitui um problema quando insultamos o sentido real das coisas e criamos textos de protesto totalmente ficcionais, nada tendo de verdade e sim tudo tendo daquilo que pensamos ser o melhor, o correto. Afinal de contas para cada gênero literário há um padrão invisível estipulado para caracterizá-lo. O problema é que esses padrões de orientação se perdem em meio a tantas confusões. Exemplo: a Ficção vem demonstrar algo meramente irreal em seu tempo, buscando uma viagem para um lugar criado, desenvolvido e propositalmente escrito, já o conto relata algo do cotidiano trazendo detalhes que prende o leitor para acompanhar o desfecho e reagir de alguma maneira. E os textos de protesto, de indignação, de insatisfação, tão presentes na blogosfera, pra que servem? Essa é uma pergunta que deveria estar nos pensamentos daqueles que fazem como eu. E a resposta é simples, basta entender o verbo que classifica esse gênero: protesto.
Pra que eu escrevo e exponho protestos? Eu posso te listar várias desculpas que eu iria dar tentando dizer que é uma razão, mas já adianto, não é. A primeira que é necessário desenvolver meu método de escrita, preciso disso, gosto disso. Bom, mas para fazer isso não é necessário encobrir o texto com valores morais às vezes desconhecidos ou mesmo, tentar mostrar que o mundo é sem ética e somos do mundo. Certo, disso podemos tirar uma conclusão lógica, eu também sou sem ética. E pra que serviu meu treino? Pra admitir, inconscientemente, que tudo que fiz não passou de tempo perdido, de um abraço no vento.
Talvez esteja pensando: “Que idiota falar disso”, ai te digo com prazer: “Hora alguma de forcei a ler”. A partir dessa frase continue quem tiver vontade, quem não quiser que vá ler outras coisas, o importante é ler, pois talvez você chegue a pensar no que eu penso: que as letras expostas possuem força, poder, mágica e graça, e não foram criadas para serem despejadas como forma de alimentar nosso ego. Não que isso seja uma verdade incondicional, é apenas o que penso. Pra quem continua meus sinceros pêsames, afinal não vai ser fácil entender meu monólogo.
Outra desculpa é que talvez se tivesse poder faria desse mundo um lugar melhor. Meros sonhos. Já me entristeço por tocar sua caixa de ultra-realidade. “Sem sonhos a vida é sem graça”. Bravo e que bom que chegamos até aqui. Sonhar, isso é bom não acha? Ou melhor, é uma das virtudes humanas. Porém os sonhos devem ser mensuráveis ou tentados, abusados, incitados, senão se tornam parte de um passado esquecido, afinal a memória é volátil.
Protestar, apenas, em texto é como gritar em silencio. Agir sem base, rumo ou crença é como atirar vendado. Há uma intensa ligação entre a ação protestante e a teoria de protesto. Corrigindo, deveria ter. O que vemos são intensas maiorias vendo um mundo de uma ótica fosca e tentando descrevê-lo com o máximo de sensacionalismo buscando impressionar e encher os olhos do leitor. Talvez eu faça isso e quero não fazer. Há uma legião de leigos acompanhando as pessoas e suas relações para compor antologias sociais em seus impecáveis blogs. Talvez você seja um conhecedor dessas relações e tente explicá-las, nesse caso desconsidere o que falo. Falo mesmo é pra mim que sou ignorante, de um modo geral. Termos como, dar murro em ponta de faca, fazer castelo de arreia na maré alta, seja uma boa ilustração para tudo isso. Pura futilidade. Talvez suas palavras me toquem e não tocam você. Perca de tempo mais uma vez. Isso que hoje tanto te indigna foi o estopim para muitas revoluções, não apenas teóricas, mas, sobretudo práticas.
Não discordo de pensar que é mais fácil criticar meu colega do que pensar que eu sou meramente mais um desses. Não que eles sejam diabólicos. Mas se isso tanto me atinge, a ponto de protestar ao mundo, por que não faço algo? Por que não me mexo? Seria para ter o que criticar amanhã? Ou pra fazer de mim um semideus e deles, meus criticados, meros seres humanos? Você tem pré-conceitos quando escreve e quando vive se cala. Palavra sem voz é palavra perdida. E essa voz da frase anterior não é apenas sonora e sim algo que impulsiona o cumprimento do comprometimento solene, do protesto feito. Descontente comigo mesmo. Talvez um dia – por mais lúdico que pareça – alguns prefiram andar pelas ruas de cabeça erguida e braço estendido, do que caminhar cabisbaixo em busca de mazelas humanas. Não preciso analisar a sociedade para me revoltar, basta apenas me observar. E se o mundo é assim a culpa é minha.

rabiscando

meus versos não são tão apreciáveis.
não possuem os sabores dos gênios, nem
não são tateados com os dedos divinos.
são rotineiros, mas sem a magia verbal
ora extensos, como uma volta à terra,
ora curtos, como o percurso dos segundos.
às vezes, vejo-me em meus escritos
em outras ocasiões repudio-os.
inevitavelmente criei um vínculo
com meus poemas.
uma intimidade transcendente ao normal
uma relação própria de
guerra e paz
pranto e gargalhadas.

ensaio sobre a saudade

Lutar contra o tempo era a única saída. Tentar se culpar era o que mais fazia. Tratava-se como se o tempo fosse escutar suas inquietações. Mau humor, estranheza frequente. Mas aos poucos toda sensatez ia retomando seu posto, como um soldado em ensaio militar. Hospedava na memória retalhos e vestígios de encontros fragmentados por doses de interferência e lapsos de confiança. O hospede o atentava - não atentado de terror e sim atentado de doçura e descanso -. O atentado doce como mel era também parasita e viajante. Saia e se alojava no esquecimento. De lá com frequência partia rumo à lembrança, porém, permanecia pouco tempo. Tentava transformar o mutável em constante. Seus sentimentos borbulhavam como água em chamas. Seus olhos pediam a face daquela que o aproximou das virtudes da paixão e o distanciou dos legados de ser só. Sua boca ainda esperava um toque de leveza e pureza dessa que era como uma extensão de si mesmo. O desejo era tão ávido e forte, tão claro que se assemelhava a rajadas de luz soltas de um farol velho e descontrolado. Era forte, embora seus anseios o impactassem como um tanque de guerra em intenso guerrear. Feliz era sim, porém, a probabilidade de ter um melhor momento o trazia a tristeza. Tristeza de um espaço não preenchido ou uma vaga mal posta. Uma dose de calor ou uma pitada de presença seria a gratificação das lapadas súbitas do tempo. Eram açoites de saudade. Eram desgastes da vontade. Quase impenetrável, a barreira do tempo, do espaço, da saudade e da vontade que impedia o jorrar da paixão. Mas, felizmente, prevalecia o simples amor, que não é vulnerável, nem estagnado. Concluiu novamente que a esperança invariável, a fé inabalável e o amor inexplicável eram indestrutíveis e dentre todos esses o amor é soberano.

resoluções inconcretas

resolvi pensar nas coisas distintamente
colhendo o mal de cada dia,
gozando o bem de cada benção.
dividir os pensamentos por momentos
não apresar, não surtar
ser ameno brando suave.

viver o presente e - se possível-
estar presente.
resolvi segurar a bandeira
levar a canseira
e seguir te amando.
mesmo que a opacidade
mantenha minha visão fraca
sei que no final
entoarei mais alto que
o grito da solidão

que prensar em ti
transcenda a distinção.

alma musical

já nascemos com música
entalhada visceralmente
bem no cerne, bem na alma.
soa no ar alguma melodia
os pés palpitam,
as mãos balançam,
as orelhas arrebitam.
ouça o compasso já decorado
acompanhe o ritmo decifrado
um dois, dois um,
dois um, um dois
tantas ondas, tantos tons
só resta emitir do peito
comparar a balada e inalar
o íntimo da canção.

percurso afável

quando lhe vierem versos em mente
não tarde ou atrase em escrevê-los
eles fogem como águas nas mãos
são rebeldes e libertários

luto com os meus,
mas eles sempre me levam
a um patamar além daqui
me transportam para novos mundos

onde a saudade é inspiração
onde a solidão não existe
onde o sofrimento não atina
no complexo e indescritível
reino das palavras

o homem e o duto

O que vejo são dutos. Dutos tapados.
Impregnados de cimento da ilusão e
Revertidos de uma falsa decoração inconsequente.

De um lado um homem mórbido e de pé,
semelhante as suas esperanças.
Homem de senso, mas visto como sem sentido.

Vejam seu olhar fito na entrada.
No que será que pensa?
Há ainda chances de não converter
seu momento diante do duto em banalidades,
como fez com tantos planos que fizera.

Resta tempo, falta coragem,
sobre-lhe muitos pensamentos.

Do outro lado o que se tem
é um vago, um nada, uma escuridão.
Imaginações e sonhos só ousam
habitar ali quando são orientados
pela lógica ou pela realidade.

E a cima da visão do homem e do duto
há uma fé sem condições tão clamada
a qual permanece estática, apenas
traduzindo choro e tristeza
em contentamento e ânsia
por verões mais contentes.

apatia incômoda

e quando a apatia vier
se esconda nas lembranças
vislumbre com os olhos da fé.
afinal o futuro próximo é incerto
mas a esperança é doce.

um cosmopolitano atrapalhado

Tanto tempo refletido em sensações de amor e de compreensão
de muitos sorrisos compactados em pequenas porções de versos
de pensamentos cor de paixão, dizeres com tons de amor eterno.
havia uma espera banhada com um choro solto,
mas logo tudo foi convertido numa certeza honesta
e numa ligação com o Supremo, dando fôlego aos mergulhadores
do vasto amor dos abraços

foram dois mundos convergindo num mesmo cosmo
e circulando o grande e eterno Sol.
uma sincronia não física, uma vibração
que transpunha pedidos mútuos e comuns
sem barreiras, sem medos.

o longo e insaciável desejo de estar perto,
alguns olhares presenciais, outras vezes, um abraço.
e um beijo eterno rondava meus lábios,
uma eternidade vinda pelo amor crucificado,
veio certificando da certeza do que sinto,
uma pureza interna e um sorriso que alivia os incautos da vida.

és da cor humana, da aquarela mundana,
mas transmite ao meu olhar poético uma tonalidade inexistente
uma mistura de milagre e de repostas as clemências.
Orações de pedidos, de desesperos desnecessários,
à um Deus atento que nunca dormi e uma reposta num tempo áureo.
Tanto clamei, que logo me silenciei
mesmo pensando que não agüentaria tanta solidão.
mas a chuva torrente se converteu em frescor,
a seca em um campo cheio de verde, cheio de vida
e minha solidão, tão eterna aos meus olhos,
se converteu em uma companhia, uma amiga.
Minha reposta é como um sol brilhante,
como um nuvem carregada de coisas boas.
e assim meu pequeno planeta, ínfimo perante a galáxia de Deus,
foi sugado pela explosão do amor
fui mudado, fui fundido
isso é ínfimo, eu sei, e tudo isso é vaidade,
mas é intenso, é real.

as vezes a verdade dói.

Realidade. Discurtir filosofia, o cosmo, enquanto muito morrem sem ter o que discutir. Morrem calados, morrem atados com as cordas do NOSSO descaso. E muitos irão ler isso, e ficaram chocados, mas ninguém vive de dó e sim de pão e ação. Voltar a rotina sem refletir sobre isso, vai ser a reação da maioria. Rir de uma piada, tomar um sorvete ... Mas os nossos irmãos morrem sozinhos, afinal o egoísmo humano quer uma vida individual. E o abutre da vida, espera a sua comida, não porque ele é satânico ou cruel mas porque NÓS os entregamos a morte. Deus não aceita esse holocausto.

culto à velhice

depois de caminhar
na extensa e intensa vida,
estava ele olhando
tudo de cima pra baixo.
Sinal de referência ao tempo,
e de atenção aos detalhes.

Ao longe vestígios de tristeza
de perto certeza de vigor milenar

Nas mãos sacolas com pães
sem nenhuma história,
e dedos castigados
com a enxada na terra
com o suor no rosto

Seus pensamentos outrora
tão vagantes, agora se focam
no badalar pesado dos sinos
no silêncio desesperador dos ponteiros

Pensou tanto na morte
que se acostumou com ela.
Era uma certeza
que ele queria questionar.
Mas não podia.

A solidão era barrada
com o som dos pássaros
com o balançar dos ventos
Esses tais que nós,
iniciantes da vida,
nem vemos atuar

compassos largos

Um clarão diferente
sobreveio minha vida.
Um lapso de metamorfose;
algo como uma quebra.
Ou mesmo um estrondo.
De um vendaval sobrecarregado
de condições e critérios
veio um vazio doentio,
um pensamento indiferente.
Mutável me tornei.
Uma fumaça de vozes,
que dizem tudo para eles mesmos
mas não dizem nada para mim,
me atormenta e me pressiona.
Insano, insensato, insolúvel,
esse pensamento me dominava
Meu ser foi sendo acobertado
pela fantasia do comum.
Mas logo me sobreveio
a remanescente esperança
de paz e gozo.

virei um defensor
de causas próprias.
um pensador
pelo bem comum.
um egoísta relaxado,
um comunista da vida.

vestígios de um tempo

Um estado de angústia,
Um sentido de estagnação total.
Uma perca de cor,
Um momento cor âmbar,
Uma vida acinzentada.
Uma preguiça desumana,
Que pra compor esse verso
guerreei com minha complexa
convicção.

Poema vivido

II - Decreto amargo

Uma notícia chegou.
Num relapso acordei.
Estava lá um recado digital.
Peguei logo e li,
madrugada ainda.
Acordei me pus de joelho.
Falei com Deus, pedi ajuda.
Voltei a dormir,
nenhuma notícia nova,
preocupações buliam
minha mente.
Me peguei fraco a olhar
sua foto tão bonita,
seu olhar tão distante.
Agora um decreto baixou
sobre esse amor.
Um pedido invertido,
algo como: não ame mais,
esquece é rebento ainda.
Mas quem disse que amor
tem idade. Já era bem velho.
E já amara muito quando
ainda era novo.
E quem disse que amor
era fase, estava solitário.
O amor não tem tempo,
O amor não tem fase.
Paixão sim.Pode ter.
Mas amor, não.
Amor como um vínculo de perfeição,
um sentimento, um ato,
uma ação, algo descontrolado,
algo de vem de dentro,
uma espécie de anestesia
pra suportar a camuflagem barata
que o mundo chama de alegria.
O decreto vigorava
quando recebi novas noticias.
Me notificaram de tal lei.
Não tive reação. Como reagir?
Se nunca havia passado por isso.
Criei uma reação pra expressar tudo aquilo.
Senti medo.
Medo de ficar sem amor.
Mas logo calculei, pesei, equilibrei.
Amor nunca acaba já disse as escrituras.
Então, pra quê medo?
Troquei a reação.
Sentia esperança.
Pra que tudo desse certo.
Mas logo pensei claro que vai da certo.
Tudo crê, tudo suporta, repetiu
meu intelecto embasado no decreto puro.
Troquei a reação.
Tive tristeza.
Por saber que era difícil agüentar.
E logo me veio um consolo:
um trabalho bem feito.
Mas o amor proibido sempre
remexia minha mente.
Orei novamente, pedi novamente.
Agradeci dessa vez, sabendo que Ele iria resolver.
E vai. Troquei a reação.
Confiança, Convicção, Fé.
Esses não foram mais trocados,
permanecem sem esmorecer.
Desnecessário o decreto.
Onze meses de amadurecimento,
tudo bem encaminhado, uma raiz nascida
de uma semente pura, uma semente cuidada.
Todo o cuidado, pra saber que não posso
mais regrar o meu jardim.
Mas Deus mandará chuva.
E logo quando voltar a seca
estarei lá com o Habeas Corpus eterno
pronto pra regrar minha flor.