Cristo no deserto

Desde as cavernas pintadas com tintas primitivas, penso que a pedra tenha sido o primeiro local de breve descanso da humanidade. Posso estar enganado, mas creio que o ser humano utilize esse objeto, desde então, como forma de aliviar o peso de uma longa caminhada ou mesmo de uma tarefa árdua.

Penso que existam três lugares essencialmente propícios à reflexão: o mar, com toda a sua imensidão; o espaço, com seu vazio congelante; e o deserto, feito de pedra moída ao longo de milênios. Todos têm em comum a falta de algo no horizonte. Às vezes, veem-se pequenos objetos, mas tão distantes que não conseguem nos distrair de um pensamento.

Lugares estes que nos fazem abstrair de tudo e focar unicamente em um ponto. E esse ponto é o pensamento. Então, não há mais espaço para nada além da profunda e irresistível abertura que se faz no peito.

No mar não consigo caminhar. No espaço, muito menos. Já no deserto, esse é plausível, factível; mas também é dolorido, escaldante e congelante.

Lá estava. Várias pedras. Um deserto. Vários vales. Um perder de vista.

Também um homem. Desses que aparentam o comum. Nada de destaque. Nenhum brilho natural.

Rosto suado, roupa desgastada, olhar faminto, ossos aparentes, veias estufadas, um semblante de dor. Nesse mesmo corpo sofrido, uma mente forte, sólida, feita da pedra sobre a qual se sentara.

A maior das contradições: um corpo consumido, mas uma mente que emitia cura.

Um deserto. Uma pedra. Um homem.

Milhões de pensamentos. Bilhões de sinapses. A reserva de gordura consumida em quarenta dias.

Pele e osso.

Mente e vigor.

Obrigado, Jesus Cristo, por isso.