gritou-me, pelas avenidas da cidade,
em alto e bom som:
ladrão!
sussurrou-me,
numa viela escura qualquer:
desculpa!
gritou-me, pelas avenidas da cidade,
em alto e bom som:
ladrão!
sussurrou-me,
numa viela escura qualquer:
desculpa!
vejo tudo por baixo,
mas sorrio, todavia.
levando a face,
espero por um afago,
e nem sempre ele vem.
ouça-me,
sem reservas, sem preceitos.
apenas me olhe,
tenha atenção em mim,
como se eu fosse interessante.
diga-me,
sem reservas, com seus preceitos.
eu te olharei,
terei atenção em ti,
como se fosse a melhor coisa do mundo.
e dirão: busque a Deus.
mas não quero buscar.
quero que me busque,
como se eu fosse alguém especial,
mesmo que por alguns instantes.
ele fazia assim.
antes de partir,
ele me amou do seu jeito,
o melhor dos jeitos.
muito além de irmão,
um sábio.
eu, aprendiz que não fazia lições.
mesmo assim,
tinha um olhar receptivo.
aprendia ao deitar ao seu lado.
o brilho dos seus olhos
focava nas minhas sombrias pupilas.
minha mente regozijava.
quando a luz é verdadeira,
clareia incondicionalmente.
seu brilho era puro.
quando a luz é sincera,
marca o olhar alheio.
meu olhar está marcado.
para sempre.
eram olhos de Deus materializados.
não é blasfêmia:
blasfêmia era não dar atenção
para aquelas portas de bondade.
Deus estava nele.
e isso é tudo.
o som da chuva,
o cheiro da chuva,
e a chuva em si.
a terra seca,
a folha seca,
e a seca em ti.
o verde que nasce,
o brilho do verde,
e o verde em mim.
embora o que penso seja tão meu,
o que vivo é alheio.
sou meu pai, sou minha mãe,
sou meu amigo, sou o porteiro,
sou a professora, sou minha esposa,
sou meu filho, que ainda nem tenho.
sou a tv.
e quando quero me opor,
sou a oposição.
quando quero não ser,
sou ainda mais.
se meu riso
é a dor do outro,
prefiro o pranto.
se meu pranto
é o riso do outro,
não reluto.
se meu riso
se estende no outro,
continuo.
se meu pranto
é o pranto do outro,
Deus nos ajude.
estava em Petersburgo,
investigava algumas vidas e uma mente.
foram quatro tentativas,
dois inquéritos completos.
a sentença foi compreendida
logo nas primeiras linhas.
não havia dúvida; estava claro.
arte tão pura que me senti
ínfimo, ordinário.
réu estranho, solitário, extraordinário.
vida essenciada no pensar,
a tarefa humana mais sublime.
todavia, sofria sem se entender.
mas que há de bom em ser perfeito
se sua alma se corrói lentamente?
de verdade, nunca fui,
mas voltei.
do mesmo modo
a tempos passados,
escrevo meu regresso.
arrependido de ter ido.
contente de ter voltado.
feito pedra,
tudo que vem até mim
reverbera.
é olho por dente.
raiva na boca.
soco no estômago.
é ele morto, eu vivo.
eu certo, ele errado.
puro, ele maculado.
claro que posso.
eu decido.
sou o primeiro
a pegar a pedra
e a jogo.
mas lá atrás,
bem lá atrás,
era um espelho.
por isso a dor que sentia
era eu mesmo
a me atacar.
só me fiz mal.
até agora.
meus neurônios pararam.
entraram em greve.
agora tomo café com sal,
digo bom dia à meia-noite,
confundo chegadas com despedidas.
dizem que enlouqueci.
mas é apenas uma manifestação.
eles não querem mais
buscar memórias perfeitas
para comparar com meus dias cinzas.
não querem mais acreditar
que a grama de lá é mais verde.
pois concluíram, são só tons.
e cansaram de julgar.
os neurônios não recuam.
exigem silêncio.
exigem pausa.
do resto,
ainda negociam.
três goteiras em casa:
cozinha, chuveiro, pia.
deixei dois anos pingando
pra provar que eu decido quando.
arrumei duas.
na terceira, quebrei o que funcionava.
mas eu é que mando.
dez palavras
pairavam em minha mente.
uma delas, pela minha boca,
passou.
duas delas de uma música vieram,
outras duas do nada surgiram,
quatro outras um amigo disse,
uma, acho, eu mesmo pensei.
mas esta que saiu,
não sei como,
nem mesmo quando,
surgiu meio que do nada,
mas, ao mesmo tempo,
me parecia familiar.
nesse mar de palavras,
essa pesquei, embalei,
de improviso,
e saiu,
e nunca mais vai voltar.
vai fazer estrago, talvez,
vai fazer afago, quem sabe,
mas já foi,
e nunca mais vai voltar.
cambaleante, trêmula, indigesta,
mas, acho, honesta.
a palavra, então,
era um simples,
por vezes incompreendido:
não.
Ouve-se um grito do fundo de um fruto:
nasce sozinho, como a noite.
Adormecido pelo veneno do destino,
agora só, ele clama por socorro.
Esse grito sussurra as dores do tempo.
Mórbido, mas grato, ele aplaude
seu próprio surgimento —
reconhece que cada um tem sua sina.
Vive almejando saber, conhecimento,
para preencher as lacunas do destino.
Mas seu instinto apaga o dia aprendido
e, com o tempo, monotonia vira contentamento.
A solidão ainda corrói sua alma.
Tenta escapar da lembrança,
mas seu brilho aumenta de expectativas —
irradia forte, como a esperança.
Seus sonhos começam a solidificar.
Um dia, uma brisa o carrega para o céu
e ele voa, como folha no outono.
A brisa cessa. Ele despenca.
Gritos de esperança tornam-se angústia.
Cai sobre a terra molhada
pelas lágrimas do céu, que se emociona.
Cobre-se rápido, espantando o frio.
Então, coberto pela terra úmida, ele cresce.
Suas cóleras ficam com a casca extraída.
Ele se abre: de seu interior sai a esperança acumulada.
O grito agora é mais alto, mais agudo, feliz.
Não grita mais em busca de ajuda —
grita jubilando, louvando
pela doce brisa que o trouxe até aqui.