poslúdio da morte

a dor ainda está latente,
pulsando feito o peito.

ora atinge como flecha:
corta, dói, machuca.

ora vem como um raio,
inesperado, rápido, voraz.

a dor da morte é
a dor de continuar a vida.

seguir com a ausência,
com as lembranças,
sempre quentes, nunca frias.

não era para lágrimas

mas quando ela rola,
o rosto cede caminho,
e o coração acompanha
o trajeto.

uma maneira de dizer
tudo sem falar nada.
sinceridade em um
gesto.

escuridão

quando estiveres na escuridão,
não titubeies, fantasiando coisas.
foca pensamentos no nada,
sem deixar brechas para miragens.

com o tempo, as cores revividas serão,
vagarosamente...

os medos que te impactam,
sem nem mesmo existirem,
serão clareados lentamente.

logo concluirás
que o escuro é semiótica
e que tudo não passa de dogmas.

cicatriz

eu vi em seus olhos:
inocência e medos,
como se o mundo não lhe registrasse.

não lhe desejo mal,
apenas o melhor que tenho.

sinto seu sofrimento como se fosse meu.
sinto sua retina tocar a minha,
sinto seu corte no meu rosto.

contemplação

olhei o céu.
observei ao redor.
vi o povo humilde,
mãos calejadas,
rostos cansados.

então disse a todos:
aos que creem, glória a Deus.
aos que não creem,
apenas glória.

meu irmão

o temor virou lágrimas.
um amor sem mancha,
puro como poucos.

seu sorriso ainda vejo:
aquele jeito de amigo
que carrego comigo.

enquanto dure

nada passa, nada expira.
o passado é um rio que dorme,
e a memória, uma mentira multiforme.

dualidade

gritou-me, pelas avenidas da cidade,
em alto e bom som:
ladrão!

sussurrou-me,
numa viela escura qualquer:
desculpa!

cão

vejo tudo por baixo,
mas sorrio, todavia.
levando a face,
espero por um afago,
e nem sempre ele vem.

igual a ele

ouça-me,
sem reservas, sem preceitos.
apenas me olhe,
tenha atenção em mim,
como se eu fosse interessante.

diga-me,
sem reservas, com seus preceitos.
eu te olharei,
terei atenção em ti,
como se fosse a melhor coisa do mundo.

e dirão: busque a Deus.

mas não quero buscar.
quero que me busque,
como se eu fosse alguém especial,
mesmo que por alguns instantes.

ele fazia assim.

antes de partir,
ele me amou do seu jeito,
o melhor dos jeitos.

muito além de irmão,
um sábio.
eu, aprendiz que não fazia lições.

mesmo assim,
tinha um olhar receptivo.

aprendia ao deitar ao seu lado.

o brilho dos seus olhos
focava nas minhas sombrias pupilas.
minha mente regozijava.

quando a luz é verdadeira,
clareia incondicionalmente.

seu brilho era puro.

quando a luz é sincera,
marca o olhar alheio.

meu olhar está marcado.
para sempre.

eram olhos de Deus materializados.

não é blasfêmia:
blasfêmia era não dar atenção
para aquelas portas de bondade.

Deus estava nele.
e isso é tudo.

contraste

o som da chuva,
o cheiro da chuva,
e a chuva em si.

a terra seca,
a folha seca,
e a seca em ti.

o verde que nasce,
o brilho do verde,
e o verde em mim.

sou

embora o que penso seja tão meu,
o que vivo é alheio.

sou meu pai, sou minha mãe,
sou meu amigo, sou o porteiro,
sou a professora, sou minha esposa,
sou meu filho, que ainda nem tenho.

sou a tv.

e quando quero me opor,
sou a oposição.
quando quero não ser,
sou ainda mais.

rindo o pranto

se meu riso
é a dor do outro,
prefiro o pranto.

se meu pranto
é o riso do outro,
não reluto.

se meu riso
se estende no outro,
continuo.

se meu pranto
é o pranto do outro,
Deus nos ajude.

Raskólnikov

estava em Petersburgo,
investigava algumas vidas e uma mente.

foram quatro tentativas,
dois inquéritos completos.

a sentença foi compreendida
logo nas primeiras linhas.
não havia dúvida; estava claro.

arte tão pura que me senti
ínfimo, ordinário.

réu estranho, solitário, extraordinário.
vida essenciada no pensar,
a tarefa humana mais sublime.

todavia, sofria sem se entender.

mas que há de bom em ser perfeito
se sua alma se corrói lentamente?

retorno

de verdade, nunca fui,
mas voltei.

do mesmo modo
a tempos passados,
escrevo meu regresso.

arrependido de ter ido.
contente de ter voltado.

reflexo

feito pedra,
tudo que vem até mim
reverbera.

é olho por dente.
raiva na boca.
soco no estômago.

é ele morto, eu vivo.
eu certo, ele errado.
puro, ele maculado.

claro que posso.
eu decido.

sou o primeiro
a pegar a pedra
e a jogo.

mas lá atrás,
bem lá atrás,
era um espelho.

por isso a dor que sentia
era eu mesmo
a me atacar.

só me fiz mal.
até agora.

greve

meus neurônios pararam.
entraram em greve.

agora tomo café com sal,
digo bom dia à meia-noite,
confundo chegadas com despedidas.

dizem que enlouqueci.
mas é apenas uma manifestação.

eles não querem mais
buscar memórias perfeitas
para comparar com meus dias cinzas.

não querem mais acreditar
que a grama de lá é mais verde.

pois concluíram, são só tons.
e cansaram de julgar.

os neurônios não recuam.
exigem silêncio.
exigem pausa.

do resto,
ainda negociam.

goteiras

três goteiras em casa:
cozinha, chuveiro, pia.
deixei dois anos pingando
pra provar que eu decido quando.
arrumei duas.
na terceira, quebrei o que funcionava.
mas eu é que mando. 

10 palavras

dez palavras
pairavam em minha mente.
uma delas, pela minha boca,
passou.

duas delas de uma música vieram,
outras duas do nada surgiram,
quatro outras um amigo disse,
uma, acho, eu mesmo pensei.

mas esta que saiu,
não sei como,
nem mesmo quando,
surgiu meio que do nada,
mas, ao mesmo tempo,
me parecia familiar.

nesse mar de palavras,
essa pesquei, embalei,
de improviso,

e saiu,
e nunca mais vai voltar.

vai fazer estrago, talvez,
vai fazer afago, quem sabe,

mas já foi,
e nunca mais vai voltar.

cambaleante, trêmula, indigesta,
mas, acho, honesta.

a palavra, então,
era um simples,
por vezes incompreendido:

não.

Semente Ferida (revisado)

Ouve-se um grito do fundo de um fruto:
nasce sozinho, como a noite.
Adormecido pelo veneno do destino,
agora só, ele clama por socorro.

Esse grito sussurra as dores do tempo.
Mórbido, mas grato, ele aplaude
seu próprio surgimento —
reconhece que cada um tem sua sina.

Vive almejando saber, conhecimento,
para preencher as lacunas do destino.
Mas seu instinto apaga o dia aprendido
e, com o tempo, monotonia vira contentamento.

A solidão ainda corrói sua alma.
Tenta escapar da lembrança,
mas seu brilho aumenta de expectativas —
irradia forte, como a esperança.

Seus sonhos começam a solidificar.
Um dia, uma brisa o carrega para o céu
e ele voa, como folha no outono.
A brisa cessa. Ele despenca.

Gritos de esperança tornam-se angústia.
Cai sobre a terra molhada
pelas lágrimas do céu, que se emociona.
Cobre-se rápido, espantando o frio.

Então, coberto pela terra úmida, ele cresce.
Suas cóleras ficam com a casca extraída.
Ele se abre: de seu interior sai a esperança acumulada.
O grito agora é mais alto, mais agudo, feliz.

Não grita mais em busca de ajuda —
grita jubilando, louvando
pela doce brisa que o trouxe até aqui.

corte

corte sem navalha
e sem simetria
vai cortando e
retirando todo
o excesso poético,
tudo além da poesia.

Apenas mais uma história

Ontem morreu
um fumante afogado.
Pobre Coitado.

Comprou um cigarro,
pagou e bebeu um café fiado.
Depois ficou sentado
num banco de metal enferrujado.
Levantou, calçou o chinelo.
Andou uns metros.
Pensou na vida.
Escreveu uma carta
com duas palavras.
Andou mais,
Viveu mais,
um pouco mais.
Correu até o cais,
fumou o cigarro
sem prazer, sem amor
a fumaça, assim tragou.
Estava com a cabeça cheia.
Era pobre.
Pensou mais um pouco.
Respirou fundo e
mudou a história.
Não morreu.
Assim sucedeu.
As duas palavras foram emboladas
e junto com o vício afogadas.
Tudo mudou.